Novo medicamento reduz drasticamente pressão em pacientes resistentes ao tratamento
Ensaio clínico internacional mostra que o baxdrostat diminuiu a pressão arterial por 24 horas em pacientes que já utilizavam múltiplos remédios — resultado considerado um dos mais expressivos já observados em hipertensão resistente

Domínio público
Por décadas, médicos têm enfrentado um desafio persistente no tratamento da hipertensão: pacientes cuja pressão arterial permanece perigosamente elevada mesmo após o uso combinado de vários medicamentos. Agora, um grande ensaio clínico internacional publicado neste sábado (7), na revista médica The Lancet, aponta para uma possível mudança nesse cenário. O estudo mostra que o fármaco experimental baxdrostat conseguiu reduzir de forma substancial a pressão arterial em pessoas com hipertensão resistente — um grupo de alto risco para infarto, derrame e insuficiência renal.
O ensaio de fase 3, chamado Bax24, avaliou o efeito do medicamento em adultos cuja pressão sistólica permanecia acima de 140 mm Hg apesar do uso de três ou mais anti-hipertensivos, incluindo diuréticos. Após 12 semanas de tratamento, os pacientes que receberam baxdrostat apresentaram uma queda média de 16,6 mm Hg na pressão sistólica medida ao longo de 24 horas, enquanto o grupo placebo registrou redução de apenas 2,6 mm Hg. A diferença ajustada entre os grupos foi de 14 mm Hg, resultado considerado estatisticamente robusto pelos pesquisadores.
“Observamos uma redução consistente da pressão arterial ao longo de todo o dia e da noite, o que é particularmente relevante em pacientes com hipertensão resistente”, afirmou Bryan Williams, cardiologista do University College London Institute of Cardiovascular Science e autor correspondente do estudo. Segundo ele, a magnitude da queda observada está entre as maiores já registradas em ensaios clínicos para essa condição.
Um alvo hormonal central
O medicamento atua em um mecanismo hormonal fundamental no controle da pressão arterial. O baxdrostat é um inibidor seletivo da enzima aldosterona sintase, responsável pela produção de aldosterona — hormônio que regula o equilíbrio de sódio e água no organismo. Quando produzido em excesso, ele contribui para retenção de sal, aumento do volume sanguíneo e elevação da pressão.
“A desregulação da aldosterona é cada vez mais reconhecida como um dos motores da hipertensão difícil de controlar”, explicou o pesquisador principal Michel Azizi, da Université Paris Cité e do Hospital Georges Pompidou, em Paris. “Ao bloquear seletivamente a produção desse hormônio, conseguimos reduzir significativamente a pressão arterial mesmo em pacientes já tratados com múltiplas terapias.”
Durante o estudo, os níveis de aldosterona no sangue caíram cerca de 76% entre os pacientes tratados com o medicamento, confirmando o mecanismo de ação do fármaco.
Estudo global com pacientes de alto risco
O ensaio envolveu 217 pacientes recrutados em 79 centros clínicos em 22 países. Todos tinham hipertensão resistente confirmada por monitoramento ambulatorial — um método que registra a pressão arterial ao longo de 24 horas e reduz a possibilidade de resultados distorcidos por fatores como ansiedade durante consultas médicas.
Os participantes tinham idade mediana de 60 anos e utilizavam, em média, quase quatro medicamentos anti-hipertensivos. Mesmo assim, a pressão sistólica média permanecia acima de 140 mm Hg.
Além da redução global da pressão, o estudo revelou um resultado particularmente significativo: 71% dos pacientes tratados com baxdrostat atingiram níveis de pressão considerados controlados (abaixo de 130 mm Hg) ao final das 12 semanas, contra apenas 17% no grupo placebo.
Outro aspecto relevante foi a queda expressiva da pressão durante o sono. A pressão sistólica noturna diminuiu em média 16 mm Hg entre os pacientes tratados, um achado importante porque a pressão elevada durante a noite está fortemente associada ao risco de morte cardiovascular.
Segurança e efeitos colaterais
Como ocorre com outros medicamentos que interferem na aldosterona, o tratamento foi associado a alterações nos níveis de potássio no sangue. Cerca de 3% dos pacientes apresentaram níveis elevados de potássio acima de 6 mmol/L, condição conhecida como hipercalemia, que pode exigir monitoramento clínico.
Eventos adversos ocorreram em 52% dos pacientes que receberam o medicamento, comparados a 37% no grupo placebo, embora a maioria tenha sido considerada leve ou moderada. Não houve mortes nem casos de insuficiência adrenal durante o estudo.
Os pesquisadores também observaram uma redução temporária na taxa de filtração glomerular — indicador da função renal — que tende a ocorrer com medicamentos que alteram o equilíbrio hormonal do sistema renina-angiotensina-aldosterona. No entanto, os valores retornaram próximos ao normal após a interrupção do tratamento.
Um possível novo caminho terapêutico
Especialistas dizem que os resultados reforçam a ideia de que o excesso de aldosterona desempenha papel central em muitos casos de hipertensão resistente — condição que afeta milhões de pessoas no mundo.
Estudos anteriores já haviam mostrado que antagonistas do receptor mineralocorticoide, como a espironolactona, podem reduzir a pressão nesses pacientes. O baxdrostat, no entanto, age em uma etapa anterior do processo, bloqueando diretamente a produção do hormônio.
“Os inibidores seletivos da aldosterona sintase representam uma estratégia terapêutica promissora para pacientes cuja pressão permanece elevada apesar do tratamento convencional”, escreveram os autores no artigo.
Ainda assim, eles ressaltam que estudos de longo prazo serão necessários para confirmar se as reduções na pressão arterial se traduzem em menor incidência de infartos, derrames e mortes cardiovasculares.
Ensaios adicionais já estão em andamento para avaliar o impacto do medicamento em pacientes com doença renal crônica e insuficiência cardíaca.
Se esses resultados forem confirmados, dizem os pesquisadores, o baxdrostat poderá abrir uma nova frente no tratamento de uma das condições mais comuns — e mais difíceis de controlar — da medicina moderna.
Referência
Efeito do baxdrostat na pressão arterial ambulatorial em pacientes com hipertensão resistente (Bax24): um estudo de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. The Lancet. Vol. 407 No. 10532 p988 Publicado: 07 de março de 2026. Investigadores do Bax24† - DOI: 10.1016/S0140-6736(25)02549-8